{"id":1604,"date":"2021-07-20T20:28:34","date_gmt":"2021-07-20T23:28:34","guid":{"rendered":"http:\/\/associacaomedicacascavel.com\/?p=1604"},"modified":"2025-04-03T16:22:37","modified_gmt":"2025-04-03T19:22:37","slug":"sobre-um-bom-conselho-que-me-marcou-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/associacaomedicacascavel.com\/index.php\/2021\/07\/20\/sobre-um-bom-conselho-que-me-marcou-parte-ii\/","title":{"rendered":"Sobre um bom conselho que me marcou \u2013 Parte II"},"content":{"rendered":"<body>\n<p>Quando nos deparamos com algum conselho que nos \u00e9 dado \u2013 saliente-se que um bom conselho deve ser gratuito, sem interesse e sem segundas intens\u00f5es ou ganhos -, um excedente da viv\u00eancia e experi\u00eancia de quem o doa, por amizade, amor ou mesmo sem interesse, quase sempre nos causa alguma reflex\u00e3o. Ou de aceita\u00e7\u00e3o ou de repulsa. Raramente refletimos como algo que dever\u00edamos saber.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que o desej\u00e1vel seria que conselhos fossem reflexo do espa\u00e7o da alma de algu\u00e9m que, ao transbordar em experi\u00eancia e alguma sabedoria, jorra aos nossos ouvidos e entendimento como uma po\u00e7\u00e3o de tratamento precoce a situa\u00e7\u00f5es que ainda n\u00e3o vivenciamos, ou que vivenciamos de modo n\u00e3o satisfat\u00f3rio ou que ainda est\u00e3o por vir.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos chega em momentos em que a vida ainda n\u00e3o endureceu, ainda n\u00e3o mostrou seu lado rude e frio da realidade, e, infelizmente, nos passa desapercebido. E, por vezes, vem em momentos que nos perguntamos: como que n\u00e3o pensei nisso, ou n\u00e3o me foi dito isso antes.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 os conselhos que n\u00f3s criamos para n\u00f3s mesmos, reflexo de situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o nos foi favor\u00e1vel ou que nos desgastaram emocionalmente. E, mesmo esses conselhos, no furor da emo\u00e7\u00e3o, parecem decis\u00f5es definitivas. Todavia, passada a fase emocional da situa\u00e7\u00e3o, esquecemos e voltamos a nos complicar. Incr\u00edvel, n\u00e3o? Nem n\u00f3s mesmos guardamos esses autoconselhos, muitas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um epis\u00f3dio de vida que me marcou muito. Sempre falo com os amigos \u2013 talvez como uma forma de que, melhorando o refletir de algu\u00e9m, mesmo n\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3ximo, o fa\u00e7a sofrer menos e reflita em menos problemas na sociedade \u2013 sobre um conselho que recebi quando bem jovem de um parente distante.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu nome vou simplificar, pois era em castelhano. Tio Alexandre. Um ga\u00facho de poucas palavras e muita a\u00e7\u00e3o. Excelente pai, esposo e patr\u00e3o. Vivia ele no interior do Rio Grande Amado, digo, Rio Grande do Sul, perto da fronteira do Uruguai. Por ocasi\u00e3o de f\u00e9rias, eu passava alguns dias em sua propriedade rural, uma fazenda com gado criado extensivamente, como na ocasi\u00e3o era comum por aquelas bandas.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis que houve um torneio de futebol entre v\u00e1rias comunidades e, associado ao torneio, uma festividade religiosa local. Fui convidado para atuar numa posi\u00e7\u00e3o de destaque. A de goleiro. Para a torcida a favor, eu era uma esperan\u00e7a de \u201catacar bem no gol\u201d a todas as investidas dos advers\u00e1rios. Ent\u00e3o era destaque para o bem e para o mal, se falhasse desastrosamente. Para os times contr\u00e1rios, era destaque pois queriam marcar gols, n\u00e3o s\u00f3 para vencer nosso time, mas por eu ser um goleiro da capital.<\/p>\n\n\n\n<p>Na localidade, naquele fim de semana que se promoveu o torneio, que se iniciou ainda cedo pela manh\u00e3, ap\u00f3s a missa das sete e meia, enquanto o churrasco ia para o fogo num galp\u00e3o cheio de fuma\u00e7a, brasa, espetos deliciosamente recheados, antigos churrasqueiros e alguma bebida, fazia muito calor. Tempo abafado, mas com um sol radiante e encantador.<\/p>\n\n\n\n<p>Saliente-se que eu ia l\u00e1 pelos meus 15 anos. Atl\u00e9tico na \u00e9poca. Em boa forma esportiva. N\u00e3o fomos mal no decorrer do torneio. Fiz at\u00e9 algumas defesas importantes que nos rendeu um honroso terceiro lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis que, findo o torneio, meia tarde, com tempo de os atletas finalistas ainda apreciarem as del\u00edcias da culin\u00e1ria local e fazerem alguma sociabilidade com os companheiros, outros atletas e as gurias da torcida, e com o calor intenso que fazia, nada melhor do que se hidratar. Foi a\u00ed ent\u00e3o que, nas banquinhas de bebida, havia, al\u00e9m de \u201cgasosas\u201d e sucos locais, uma bebida t\u00edpica da regi\u00e3o: a sangria, que nada mais, nada menos, era semelhante ao refresco de vinho tinto das regi\u00f5es serranas no Rio Grande de coloniza\u00e7\u00e3o italiana. Tratava-se de uma combina\u00e7\u00e3o de um ter\u00e7o de vinho tinto, \u201csoda club\u201d, que nada mais era do que \u00e1gua mineral com g\u00e1s num botij\u00e3ozinho de vidro com v\u00e1lvula superior, a\u00e7\u00facar, gelo e lim\u00e3o. Isso servido em copos de vidro bem generosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Logicamente n\u00e3o deveria ser vendido para menores. Mas, naquela \u00e9poca, e s\u00f3 naquela \u00e9poca, dava-se um jeito de comprar a maravilhosa bebida refrescante. Mesmo n\u00e3o tendo a idade adequada, ainda mais por ser de fora da regi\u00e3o, algu\u00e9m n\u00e3o muito conhecido no local.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o copo em m\u00e3os, ao lado de um primo distante bem mais velho, nos delici\u00e1vamos com aquele l\u00edquido espetacular. Aliviava o calor, sabor distinto de tudo que havia tomado antes na vida, fortemente gaseificado, e ainda com a sensa\u00e7\u00e3o de estar levando alguma vantagem em ter conseguido comprar o produto alco\u00f3lico sem ter a idade necess\u00e1ria. Est\u00e1vamos na sombra de uma pequena \u00e1rvore e eu, logicamente, meio que escondendo o conte\u00fado daquilo que me encantara da vista dos transeuntes, me esquivava de ser notado. Mas o destino quis que, em nossa dire\u00e7\u00e3o, viesse o tio Alexandre. Com seus passos curtos, com aquelas pernas tortas de cavalgadas, com sua alpargata naqueles p\u00e9s tortuosos e cheios de sali\u00eancias \u00f3sseas pelo tempo, uma vez que n\u00e3o tolerava mais botas de couro apertadas e desconfort\u00e1veis, barba por fazer\u2026 e a\u00ed eu tremi e temi. Temi que, ao se aproximar, ele fosse a\u00e7oitado pela contrariedade e me desse um famoso \u201caplauso na orelha\u201d. Ele se aproximou lentamente, me olhou de alto a baixo, incluindo o copo com a bebida dos sonhos naquela hora de calor, e disse num castelhano chulo: \u201c<em>se te gustas\u2026 paresse!<\/em>\u201d (se pronuncia\u00a0<em>p\u00e1resse<\/em>). E seguiu seu caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Aliviado com a calma inesperada dele ao se deparar comigo em situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o muito confort\u00e1vel, perguntei ao primo, que, rindo da minha ang\u00fastia s\u00fabita, sobre o sentido daquilo, pois mesmo entendendo o castelhano n\u00e3o vi sentido em \u201cse tu gostas (da bebida subentendi), se referindo \u00e0 sangria, permane\u00e7a\/fique em p\u00e9!\u201d Meu primo, que logicamente j\u00e1 conhecia o conselho, me explicou sorridente. \u201cTu podes tomar a bebida que quiseres, o quanto quiseres\u2026 desde que permane\u00e7a apoiado somente nas tuas pernas. Sem balc\u00e3o, sem banqueta, sem paredes\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Respondi de imediato: \u201cMas da\u00ed, fazendo isso, a gente fica tonto!<\/p>\n\n\n\n<p>Ele, sorrindo, com um ar de sabedoria, bateu no meu ombro duas vezes e logo ap\u00f3s apontando o indicador para a minha cabe\u00e7a, tocando-a levemente, exclamou: \u201cEnt\u00e3o esse \u00e9 o teu limite!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Creio que esse foi um muito bom conselho.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Rubem Fernando Xavier da Cruz \u2013 M\u00e9dico ortopedista, traumatologista e acupunturista \u2013 CRM 9872<\/strong><\/em><\/p>\n<\/body>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando nos deparamos com algum conselho que nos \u00e9 dado \u2013 saliente-se que um bom conselho deve ser gratuito, sem interesse e sem segundas intens\u00f5es ou ganhos -, um excedente da viv\u00eancia e experi\u00eancia de quem o doa, por amizade, amor ou mesmo sem interesse, quase sempre nos causa alguma reflex\u00e3o. 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