{"id":1606,"date":"2021-07-27T15:29:51","date_gmt":"2021-07-27T18:29:51","guid":{"rendered":"http:\/\/associacaomedicacascavel.com\/?p=1606"},"modified":"2025-04-03T16:22:32","modified_gmt":"2025-04-03T19:22:32","slug":"uma-historia-quase-esquecida-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/associacaomedicacascavel.com\/index.php\/2021\/07\/27\/uma-historia-quase-esquecida-parte-i\/","title":{"rendered":"Uma hist\u00f3ria quase esquecida \u2013 Parte I"},"content":{"rendered":"<body>\n<p>O ano era 1933 quando Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha. Friedrich Traumann, meu av\u00f4, na \u00e9poca com 57 anos, ouvia no r\u00e1dio o discurso de posse do novo mandat\u00e1rio da na\u00e7\u00e3o germ\u00e2nica. Ao fim do discurso, Friedrich desligou o r\u00e1dio e, com ar preocupado, comentou com minha av\u00f3 Else: \u201cIsso n\u00e3o vai acabar bem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu av\u00f4 era o que se chama crist\u00e3o novo. Era judeu de sangue, por\u00e9m, professava a religi\u00e3o Luterana. Para os nazistas, j\u00e1 era motivo suficiente para envi\u00e1-lo a um campo de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos poucos, meus av\u00f3s foram se organizando e se preparando para deixar o pa\u00eds e, em 1939, em um navio chamado Monte Pascoal, zarparam em uma viagem sem retorno, de mais de 30 dias, rumo ao desconhecido. Haviam comprado a dist\u00e2ncia 56 alqueires de terra em um vilarejo chamado Rol\u00e2ndia, do norte do Paran\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse vilarejo, j\u00e1 havia alguns alem\u00e3es enviados pelo governo alem\u00e3o para formar Col\u00f4nias Alem\u00e3s no al\u00e9m-mar. Era um experimento do governo alem\u00e3o. E havia tamb\u00e9m v\u00e1rias fam\u00edlias alem\u00e3s que vieram fugidas da Alemanha, ou por motivos pol\u00edticos ou por serem judias, ou ainda por n\u00e3o concordarem com o que estava acontecendo na Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu av\u00f4 era advogado e minha av\u00f3 cantora l\u00edrica. Viviam em D\u00fcsseldorf e eram de classe m\u00e9dia alta na Alemanha. Eram extremamente urbanos, nunca tinham plantado sequer um p\u00e9 de alface. Imaginem chegarem a um pa\u00eds onde o clima era diferente, a l\u00edngua diferente, os costumes diferentes, onde suas profiss\u00f5es de origem n\u00e3o lhes serviriam para nada e n\u00e3o conheciam ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tiveram inestim\u00e1vel ajuda dos alem\u00e3es que aqui j\u00e1 estavam e tamb\u00e9m de brasileiros contratados, e, aos poucos, foram derrubando a mata virgem com fogo e machado at\u00e9 que a terra se tornasse cultiv\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Os tempos eram dif\u00edceis. Muitas eram as dificuldades inerentes \u00e0 \u00e9poca, ao lugar e \u00e0s circunst\u00e2ncias.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das dificuldades sofridas pelos imigrantes foi a xenofobia. Quem presidia o Brasil na \u00e9poca era Get\u00falio Vargas, que era german\u00f3filo, mas em 1943, por diversos fatores e, principalmente, por press\u00e3o dos Estados Unidos, mudou de lado. Com essa mudan\u00e7a, a popula\u00e7\u00e3o brasileira passou a hostilizar os imigrantes alem\u00e3es. Foi baixada uma lei que proibia que se falasse alem\u00e3o em locais p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha av\u00f3 me contou uma hist\u00f3ria muito comovente relacionada a essa proibi\u00e7\u00e3o: um alem\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o me lembro o nome dele, foi preso por falar alem\u00e3o alto e em bom som pelas ruas de Rol\u00e2ndia. E de nada adiantavam os pedidos ao delegado para que liberasse o alem\u00e3o. \u201cEstava na lei que n\u00e3o se pode falar alem\u00e3o em locais p\u00fablicos, houve descumprimento da lei, e a pena era reclus\u00e3o. Ponto final!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Eis que o padre da cidadela, um italiano, pediu para entrar na cela para conversar com o alem\u00e3o. Ao entrar, sentou-se ao lado do alem\u00e3o e declarou que dali s\u00f3 sairia se fosse com o alem\u00e3o. De in\u00edcio, o delegado ignorou a atitude do padre e n\u00e3o tomou provid\u00eancia. Mas a not\u00edcia se espalhou e as pessoas come\u00e7aram a chegar em grande n\u00famero na delegacia pedindo cada vez com mais veem\u00eancia pela liberdade dos dois. E, antes que o imbr\u00f3glio tomasse propor\u00e7\u00f5es incontrol\u00e1veis, n\u00e3o restou outra sa\u00edda ao delegado a n\u00e3o ser liberar o alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O padre cat\u00f3lico e o alem\u00e3o judeu sa\u00edram juntos da pris\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, tamb\u00e9m n\u00e3o lembro o nome desse padre, que deu de ombros para a nacionalidade, a pol\u00edtica, o credo, para ser apenas um ser humano decente, corajoso e ajudar outro ser humano acuado.<\/p>\n\n\n\n<p>Dr Jonathan Traumann \u2013 m\u00e9dico anestesiologista \u2013\u00a0<em>CRM 8228-PR<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>(A segunda e \u00faltima parte do artigo ser\u00e1 publicada na pr\u00f3xima ter\u00e7a-feira, dia 3)<\/em><\/p>\n<\/body>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano era 1933 quando Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha. Friedrich Traumann, meu av\u00f4, na \u00e9poca com 57 anos, ouvia no r\u00e1dio o discurso de posse do novo mandat\u00e1rio da na\u00e7\u00e3o germ\u00e2nica. 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