{"id":1925,"date":"2022-03-22T10:30:00","date_gmt":"2022-03-22T13:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/associacaomedicacascavel.com\/?p=1925"},"modified":"2022-03-22T10:30:00","modified_gmt":"2022-03-22T13:30:00","slug":"um-resto-de-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/associacaomedicacascavel.com\/index.php\/2022\/03\/22\/um-resto-de-liberdade\/","title":{"rendered":"Um resto de liberdade"},"content":{"rendered":"<body>\n<p>Mexendo numa gaveta encontrei uma caixa e dentro dela havia um resto de liberdade. Era t\u00e3o pouco que quase n\u00e3o se notava, mas estava l\u00e1. Embaixo de uns pap\u00e9is velhos, umas canetas gastas e outras quinquilharias que a gente esquece nas gavetas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela estava um pouco empoeirada e dava para ver que n\u00e3o era uma coisa nova. Eu a puxei l\u00e1 do fundo, soprei um pouco para tirar o p\u00f3, olhei de novo e n\u00e3o sabia o que fazer com ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente eu pensei em mostr\u00e1-la para as pessoas. Perguntar o que fariam se elas tivessem achado.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra coisa que eu percebi \u00e9 que ela tinha um peso. Nada que exigisse muito esfor\u00e7o, mas definitivamente tinha um peso. Ent\u00e3o eu pensei, h\u00e1 quanto tempo ela j\u00e1 estava ali guardada? Quem tinha esquecido aquela coisa t\u00e3o preciosa? Quem n\u00e3o lembrou mais de procur\u00e1-la?<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o resolvi sair na rua com ela e ver se algu\u00e9m percebia alguma coisa. Desci as escadas, abri a porta e sa\u00ed. A rua estava vazia e o dia estava nublado, at\u00e9 um pouco frio. Coloquei a liberdade no bolso e comecei a caminhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o algumas pessoas come\u00e7aram a passar por mim, naquele ritmo agitado da vida. Naquela marcha autom\u00e1tica dos dias cheios e das cabe\u00e7as preocupadas. Ningu\u00e9m me olhava. Apenas passavam. Ent\u00e3o tirei a liberdade e comecei a segur\u00e1-la na m\u00e3o direita, depois na esquerda, como um brinquedo ela ia de l\u00e1 para c\u00e1. Caiu no ch\u00e3o e eu a juntei. Soprei de novo para tirar a poeira da rua.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma esquina umas crian\u00e7as brincavam. Falavam alto e corriam. Ao passar por onde estavam elas vieram ao meu encontro e queriam saber o que eu tinha na m\u00e3o. Mostrei. Elas riram mais ainda. Um riso de felicidade genu\u00edna como ao encontrar um amigo novo. E elas n\u00e3o estranhavam. Olhavam para mim com um ar de certa admira\u00e7\u00e3o. Sorri de volta e comecei a entender um pouco.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuei andando at\u00e9 voltar para casa. O sol estava dando uma espiada por tr\u00e1s de umas nuvens, naquela sua rota inevit\u00e1vel. E aquilo me fez pensar no meu resto de liberdade. No quanto ela estava esquecida. No quanto ela ainda poderia fazer de diferen\u00e7a neste mundo. E eu quis espalh\u00e1-la por a\u00ed como se fosse um adubo em uma terra nova. Ou como se pudesse regar o mundo com aquela subst\u00e2ncia. Depois disso eu sentaria e ficaria olhando, toda mudan\u00e7a que isto causaria.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu havia achado um resto de liberdade naquela gaveta. Eu lembrei que ela existia. De alguma forma, nada mais seria igual a antes. Que bom que ela estava ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Ca\u00ea Martins \u2013 CRM\/PR \u2013 20965.<\/p>\n\n\n\n<p>Carlos Eduardo dos Santos Martins \u2013 M\u00e9dico Anestesiologista.<\/p>\n<\/body>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mexendo numa gaveta encontrei uma caixa e dentro dela havia um resto de liberdade. Era t\u00e3o pouco que quase n\u00e3o se notava, mas estava l\u00e1. Embaixo de uns pap\u00e9is velhos, umas canetas gastas e outras quinquilharias que a gente esquece nas gavetas. 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