{"id":1949,"date":"2022-04-05T15:00:28","date_gmt":"2022-04-05T18:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/associacaomedicacascavel.com\/?p=1949"},"modified":"2022-04-05T15:01:39","modified_gmt":"2022-04-05T18:01:39","slug":"como-o-destino-atrapalha-uma-vinganca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/associacaomedicacascavel.com\/index.php\/2022\/04\/05\/como-o-destino-atrapalha-uma-vinganca\/","title":{"rendered":"Como o destino atrapalha uma vingan\u00e7a\u2026"},"content":{"rendered":"<body>\n<p>S\u00e1bado, setembro de 1958. O enfermeiro Vicente atravessou toda rua da feira, levando numa cuba um enorme ba\u00e7o. Manezinho, filho de Atan\u00e1zio, porteiro do hospital, di\u00e1cono da igreja evang\u00e9lica, homem s\u00e9rio, temente a Deus e de grande credibilidade na cidade de Palmares, interior de Pernambuco, sofria da chamada barriga d\u2019\u00e1gua A cirurgia para retirada do ba\u00e7o, se impunha como uma medida m\u00e9dica padr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Muita gente abordava o enfermeiro Vicente, querendo saber o que levava naquela cuba, com o bra\u00e7o levantado acima da cabe\u00e7a. \u00c9 o ba\u00e7o de Manezinho, dizia,\u00a0 Dr. Fenelon operou o menino, mas n\u00e3o garante que ele v\u00e1 viver. Cirurgia dif\u00edcil, o ba\u00e7o pesou mais de dois quilos na balan\u00e7a de Am\u00e9lio, a\u00e7ougueiro, quase no fim da feira. A caminhada de ida e volta, tinha sido acompanhada por uma pequena multid\u00e3o que j\u00e1 cuidava de espalhar o prod\u00edgio.<\/p>\n\n\n\n<p>Semanas depois, na igreja presbiteriana lotada, Atan\u00e1zio agradecia a Deus a nova vida do filho, agora corado, alegre, sem aquela barriga enorme e como toda crian\u00e7a sadia, dedicando-se com fervor \u00e0s peraltices convenientes \u00e0 sua idade.<\/p>\n\n\n\n<p>Deus seja louvado, diziam as pessoas quando ouviam a hist\u00f3ria do enorme ba\u00e7o agora, de mais de cinco quilos, retirado da barriga de Manezinho. Em Palmares e por toda regi\u00e3o, o epis\u00f3dio fez a fama do Dr. Fenelon Arruado, cirurgi\u00e3o milagroso,\u00a0 homem guiado por Deus para fazer \u00a0milagres na terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Operar Manezinho num s\u00e1bado, mandar pesar o ba\u00e7o na \u00faltima barraca da feira, tinha sido uma id\u00e9ia genial.<\/p>\n\n\n\n<p>Famoso em pouco tempo, o m\u00e9dico j\u00e1 fazia, convidado, \u00a0jornadas cir\u00fargicas nas cidades da regi\u00e3o. Ribeir\u00e3o nas ter\u00e7as, Gameleira, toda quinta. Por uma estrada vicinal, mais de duas horas de Jeep, toda sexta feira, ia operar em Ipojuca.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas dias da semana passava fora, nos outros, dedicava-se\u00a0 com fervor quase religioso ao grande o n\u00famero de consultas e cirurgias no Hospital Regional em Palmares.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Iolanda, sua esposa, mo\u00e7a t\u00edmida e plena de recatos, sofria com a aus\u00eancia do marido. Esquia, muito loura para o tipo feminino daquela regi\u00e3o, tinha os olhos verdes e tristes. A casa do m\u00e9dico era vizinha ao hospital.<\/p>\n\n\n\n<p>Dr. Fenelon vivia para o trabalho. Mal cuidava da pr\u00f3pria apar\u00eancia, tinha que cuidar dos outros. Saia cedo, pela manh\u00e3. s\u00f3 retornava depois das nove da noite. \u00c0s vezes, passava horas assinando fichas m\u00e9dicas, autoriza\u00e7\u00f5es, faturas. Afinal, era o diretor do hospital e n\u00e3o fosse a dedica\u00e7\u00e3o de Dona Valderez, funcion\u00e1ria antiga, solteirona de uns cinq\u00fcenta anos, morena,\u00a0 com uma face quase leonina, sabedora dos meandros administrativos e que lhe preparava os documentos para assinar, o hospital parava.<\/p>\n\n\n\n<p>Dr. Fenelon chegava em casa com os cabelos desgrenhados, apar\u00eancia cansada, barba de tr\u00eas ou quatro dias, pedia um banho morno, que Dona Iolanda lhe preparava, comia um prato de arroz com galinha e caia na cama, logo estava dormindo pesadamente at\u00e9 que o despertador o acordasse \u00e0s seis da manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Morro de vergonha em ter que falar com pessoas estranhas, inda mais, quando voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 em casa, Fenelon. Reclamava Iolanda, eu me escondo, fecho a casa, mas eles ficam batendo palmas at\u00e9 eu abrir a porta. Uns perguntam sobre rem\u00e9dios, outros, onde voc\u00ea est\u00e1, gente de fora lhe procura para vender coisas para o hospital. Ah meu Deus, n\u00e3o sei como conversar com as pessoas. Dona Iolanda definhava. Tinha uma vaga lembran\u00e7a da \u00faltima vez que o esposo lhe dedicara uma aten\u00e7\u00e3o mais \u00edntima.<\/p>\n\n\n\n<p>O mo\u00e7o, um representante de um laborat\u00f3rio, vestia um terno azul marinho bem talhado. Camisa impecavelmente branca com o colarinho gomado. Gravata vermelha de seda brilhante. Tinha um rosto marcante e os cabelos negros, cheios, cobriam-lhe a fronte. O queixo bem formado sugeria uma masculinidade provocante. Iolanda atendeu, relutante como sempre, o que parecia ser mais um indesej\u00e1vel vendedor. Ah, Felenon, onde voc\u00ea est\u00e1, murmurou. Aquele homem tinha alguma coisa diferente na voz. Falava de modo pausado, o timbre aveludado e um som que impressionava os ouvidos de Iolanda, causando-lhe uma sensa\u00e7\u00e3o de bem estar. N\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o ao que o mo\u00e7o dizia. Apenas ouvia, embevecida, aquela voz de sonoridade macia. As m\u00e3os tremiam, quando trouxe da cozinha uma x\u00edcara de caf\u00e9. Sentiu que seu cora\u00e7\u00e3o batia descompassado, mas n\u00e3o conseguia entender o que estava se passando no seu ju\u00edzo. Quando o vendedor despediu-se, tomando-lhe as m\u00e3os e beijando-as como se ela fosse uma princesa. Fechou a porta, literalmente desabou na cadeira e passou a sentir uma inquieta\u00e7\u00e3o nunca experimentada. As pernas tremiam, o cora\u00e7\u00e3o batia de um jeito estranho. O olhar ficou perdido, dissociado da realidade e por uns momentos que lhe pareceram uma eternidade, viajou para um lugar distante, desconhecido que, segundo os entendidos nos mist\u00e9rios do amor, se materializa no cora\u00e7\u00e3o das mulheres apaixonadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ansiava pela volta do vendedor. Ela mesma estranhava o fato de n\u00e3o ter comentado com o marido aquela visita. N\u00e3o saberia dizer o que o homem queria. N\u00e3o lembrava o teor da primeira conversa. Seus ouvidos apenas guardavam a voz aveludada do mo\u00e7o e se voz tivesse cor,\u00a0 aquela, seria azul profundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O mo\u00e7o voltou. Uma, duas, tr\u00eas e mais vezes. Nunca dissera ao marido das suas visitas mesmo porque, nos \u00faltimos tempos, ao abrir a porta para o amante, sofregamente, aos beijos e abra\u00e7os, desnudava-se desordenadamente, largando pela sala em dire\u00e7\u00e3o ao quarto, saias, meias, sapatos, blusas, calcinhas. A entrega era total. Saiam do tempo e do espa\u00e7o para uma realidade somente pressentida pela paix\u00e3o ardente. N\u00e3o existia outro mundo sen\u00e3o aquele que viam de olhos fechados. \u00c0 cada quinze dias, Fenelon saia para operar em Ribeir\u00e3o, ficava fora o dia todo. O mo\u00e7o aparecia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os namorados pensam que o mundo \u00e9 cego, disse M\u00e1rio Piment\u00e3o, motorista da ambul\u00e2ncia, tido e havido como pessoa que sabia das coisas que ningu\u00e9m percebia. O coment\u00e1rio ferino, foi dito para Dona Valderez exatamente no momento em que o mo\u00e7o, muito bem arrumado, sa\u00eda da casa do Dr. Fenelon, despedindo-se da Dona Iolanda, com toda cerim\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele peda\u00e7o de papel deixara Fenelon com um olhar distante e o cora\u00e7\u00e3o apertado. Naquele dia, operou mecanicamente. N\u00e3o foi capaz de falar\u00a0 nada a n\u00e3o ser o necess\u00e1rio. Tinha um semblante diferente. Estava sem alma. Mesmo assim, no hospital, quase ningu\u00e9m percebeu a mudan\u00e7a. Somente Dona Valderez sabia o que estava se passando. Ela mesma escrevera o bilhete e colocara sobre sua mesa. \u201d Quando o senhor viaja, o urso entra na sua casa\u201d. Os pensamentos do Dr. Fenelon vagavam agora por um mundo sombrio.\u00a0 \u00a0Ao chegar em casa queixou-se de uma forte dor de cabe\u00e7a e ap\u00f3s tomar uns comprimidos, caiu na cama e dormiu pesadamente. Iolanda assim pensou; ainda bem que dormiu logo. Amanh\u00e3 cedo ele vai passar o dia todo operando em Ribeir\u00e3o e s\u00f3 voltar\u00e1, depois das dez da noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Na tarde do dia seguinte, chovia.\u00a0 O tempo fechado espantou mais cedo a luz do dia. A chuva tamb\u00e9m afugentava as pessoas das ruas, sempre emporcalhadas por uma mistura de lama e coc\u00f4 de cavalos. Iolanda e o mo\u00e7o amavam-se ruidosamente, vivendo mais umas horas naquele universo distante, somente permitido aos viajores apaixonados.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pressentiram nada, quando o mo\u00e7o arregalou os olhos. O corpo tremia, n\u00e3o sentia mais o p\u00eanis. O grito de Iolanda ao ver o marido com um revolver numa m\u00e3o e uma espingarda na outra teve uma sonoridade estranha. Fora, fora, gritava Fenelon enfurecido. Fora da minha casa! Apontando-lhes as armas, encostando o cano da espingarda em suas costas e n\u00e1degas.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos gritos, vociferando maldi\u00e7\u00f5es expulsou-os do quarto em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta da frente. A chuva caia fina, quase uma neblina. Nem o anjo Gabriel, cumprindo a determina\u00e7\u00e3o do Senhor teria sido t\u00e3o cruel. Os primeiros passantes, a princ\u00edpio, n\u00e3o entendiam o que estavam vendo. Dr. Fenelon conclamava, como um arauto ensandecido, a que toda Palmares participasse daquele drama. Iolanda e o mo\u00e7o estavam completamente nus. Ela muito branca, p\u00e9s delicados mal podia equilibrar-se na rua escorregadia e emporcalhada, pois tentava a todo custo esconder sua nudez e ainda tinha que caminhar tocada pelo cano da espingarda. O mo\u00e7o simplesmente tremia, n\u00e3o dizia nada, curvado, sem ter onde colocar as m\u00e3os, despido, constrangido de participar daquele desfile surrealista.<\/p>\n\n\n\n<p>Ouviu-se um disparo do revolver. O tiro fez muita gente acudir \u00e0 rua. Iolanda sentia a morte rondando. Ali\u00e1s, estava t\u00e3o perplexa que \u00a0nem conseguia organizar seus pensamentos e desejar a morte. O m\u00e9dico atirou novamente.\u00a0 Povo de Palmares, gritava a plenos pulm\u00f5es, veja como um homem de bem lava a sua honra. Outro tiro para cima e os dois amantes,\u00a0 encostando-se um no outro, tentando como podiam cobrir o ventre, caminhavam com dificuldade sobre as pedras molhadas como dois condenados em dire\u00e7\u00e3o ao pat\u00edbulo. Os gritos do Dr. Fenelon atraiam mais gente \u00e0 medida em o trio caminhava pelo meio da rua em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Pra\u00e7a do Jacar\u00e9, ladeira acima. O logradouro tinha um grande tanque redondo onde tr\u00eas ou quatro jacar\u00e9s capturados no rio Ipojuca, viviam pregui\u00e7osamente. A igrejinha ficava no alto e a escadaria terminava num pequeno plano que fazia, naquela ocasi\u00e3o, as vezes de um palco digno da imensid\u00e3o daquela trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p>O mo\u00e7o e\u00a0 Iolanda, p\u00e1lidos, tremiam de frio e de medo, encostados na porta da igreja tendo duas armas apontadas para si. Fenelon mais \u00e0 frente, como um mestre de cerim\u00f4nias, anunciava aos berros \u00e0 pequena multid\u00e3o as raz\u00f5es pelas quais mataria os dois na porta da igreja. Mais um tiro para cima, a multid\u00e3o tremeu, Iolanda e o mo\u00e7o cobertos por toda vergonha do mundo, n\u00e3o ousavam encarar ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Fenelon bradava. Venham todos, venham ver como um homem de bem e honrado faz Justi\u00e7a a esses que difamaram seu lar ! Romildo, dono do hotel tentou falar alguma coisa mas recebeu de volta o olhar furioso do m\u00e9dico. Eu tenho o direito de lavar a minha honra com sangue, gritou Fenelon.\u00a0 Arcl\u00e9bio, do posto de gasolina quis interferir mas a mulher o segurou, mandando-o calar-se. Para ela, qualquer interfer\u00eancia que fizesse findar aquele drama seria desastrosa para suas pretens\u00f5es mexeriqueiras, assim, era melhor que aquele epis\u00f3dio tivesse mesmo um tr\u00e1gico final.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas mulheres choravam temendo pelo desfecho daquela trag\u00e9dia. Foi quando, Dona Nulita, mulher do juiz, segurando um len\u00e7ol aproximou-se resoluta e gritou. Fenelon, voc\u00ea n\u00e3o vai estragar sua vida, voc\u00ea n\u00e3o vai atirar em ningu\u00e9m, primeiro precisa me matar e isso voc\u00ea n\u00e3o vai fazer. Rapidamente postou-se entre o m\u00e9dico e a mulher despida, abra\u00e7ando-a e cobrindo-a com o len\u00e7ol. No mesmo instante, o cabo Adailton segurou Fenelon, ainda at\u00f4nito com a perda de controle da situa\u00e7\u00e3o e gritou para o mo\u00e7o. Se dana daqui homem, desaparece. Como por encanto, o mo\u00e7o sumiu pela lateral da igreja enquanto Dona Nulita, pelo outro lado, encurvada sobre Iolanda, a conduzia para sua casa, deixando o Dr. Fenelon, ainda seguro pelo cabo Adailton, gritando as \u00faltimas amea\u00e7as aos dois pecadores que difamaram o seu lar e destro\u00e7aram sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante mais de dez anos, Palmares conheceu muitas vers\u00f5es dessa hist\u00f3ria. O certo \u00e9 que o\u00a0 m\u00e9dico largou a mulher e mudou-se da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e1bado, 17 de Abril de 1973, quinze anos depois. Dez horas da manh\u00e3 uma Rural Willys,\u00a0 cheia de malas no bagageiro com um homem e uma mulher, faz uma volta na pra\u00e7a e sobe a rampa de entrada do Hospital Regional de Palmares.<\/p>\n\n\n\n<p>Doutor Fenelon, Dona Iolanda !!!<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e1rio Piment\u00e3o, reconhecera o casal.<\/p>\n\n\n\n<p>Autor: Dr. Lucio Araripe \u2013 m\u00e9dico psiquiatra. CRM-PR 13246.<\/p>\n<\/body>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e1bado, setembro de 1958. O enfermeiro Vicente atravessou toda rua da feira, levando numa cuba um enorme ba\u00e7o. 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