{"id":2004,"date":"2022-06-07T13:41:45","date_gmt":"2022-06-07T16:41:45","guid":{"rendered":"https:\/\/associacaomedicacascavel.com\/?p=2004"},"modified":"2022-06-07T13:41:45","modified_gmt":"2022-06-07T16:41:45","slug":"a-pena-que-cai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/associacaomedicacascavel.com\/index.php\/2022\/06\/07\/a-pena-que-cai\/","title":{"rendered":"A pena que cai"},"content":{"rendered":"<body>\n<p>Estava sentado na esquina, embaixo da \u00e1rvore. Pensava no inconstante e vago passeio da vida. No ar pairava um gosto de terra e de esperma. Um p\u00e1ssaro cantou ao longe e me senti seu companheiro. Tentei ent\u00e3o vagar pelo pensamento alado do p\u00e1ssaro no alto da \u00e1rvore. Havia um ru\u00eddo de gente no fim da rua. Quem poderia afirmar se estavam vivos?<\/p>\n\n\n\n<p>Estiquei as pernas para evitar as contra\u00e7\u00f5es espasm\u00f3dicas e meu corpo se retesou como se fosse atingido por um raio. Ou ser\u00e1 que foi? Dif\u00edcil dizer agora de onde veio o impulso, o fato \u00e9 que os m\u00fasculos obedeceram. Estiquei os bra\u00e7os para cima de encontro ao c\u00e9u e tentei toc\u00e1-lo. O que pude sentir foi um bafo. Seria o bafo de Deus?<\/p>\n\n\n\n<p>Era o entardecer de mais um dia. Deslizava no ar o encanto e a maciez do dourado da tarde. Era o crep\u00fasculo inundando minha alma, queimando os nervos e amortecendo a l\u00edngua. Parecia que era o brilho dos olhos de todos os mortos me alcan\u00e7ando, e era imposs\u00edvel fugir. Mas tamb\u00e9m para que fugir?<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00e1ssaro ciscava no galho da \u00e1rvore, a brisa vagava e adormecia a pele. O ofuscante mago que dominava o dia e o levava de encontro \u00e0 noite era lentamente fustigado pelas raias da escurid\u00e3o que se arrastava vindo do infinito. E era preciso acalentar o formigamento do desconhecido que vinha, e eu tinha muitos sonhos\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Acima das encostas e dos ventos um jato rasgava o c\u00e9u iluminado pelo sol agonizante e deixava seu rastro por alguns momentos, depois desaparecia como os pensamentos v\u00e3os. Um inseto sobrevoava minha cabe\u00e7a e me fazia companhia, como se fizesse parte do meu corpo e da minha alma.<\/p>\n\n\n\n<p>Um cheiro de ovo frito avan\u00e7ava pela rua e me lembrava da fome. Um cachorro pairava deitado no meio da rua, e \u00e0s vezes levantava a cabe\u00e7a e me olhava tristemente. Quem havia posto tamanha melancolia nesses olhos marejados pela dor? Parece que olhava atrav\u00e9s de mim, e chorava l\u00e1grimas escassas de lamento e de compreens\u00e3o. Quem seria o dono daquele c\u00e3o? E ele pensaria o mesmo de mim???<\/p>\n\n\n\n<p>Era pastosa a sensa\u00e7\u00e3o de eternidade que desprendia da tarde. Quantas tardes ainda haveria de presenciar? Suportaria mais uma? No peito queimava o desejo de sobreviver e romper o futuro. Quem tem a chave para o amanh\u00e3?<\/p>\n\n\n\n<p>Sinto novamente o olhar do c\u00e3o. Na \u00e1rvore o p\u00e1ssaro tamb\u00e9m me observa. Mas o jato se foi, e sua fuma\u00e7a se diluiu no c\u00e9u. Olho para as casas e n\u00e3o vejo ningu\u00e9m, apenas sinto o cheiro de comida que emana de uma delas. H\u00e1 um choro de beb\u00ea que vem em alguns momentos, mas \u00e9 distante, vago, como se fosse uma s\u00faplica pela vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Tento ent\u00e3o me concentrar no meu cora\u00e7\u00e3o. Sinto algo explodindo no peito como se fossem bombas cadenciadas, em ritmo de guerra. Tento perceber o seu desejo, mas \u00e9 indecifr\u00e1vel. Apenas implora algo, mas quem saber\u00e1 diz\u00ea-lo?<\/p>\n\n\n\n<p>Revejo meus pensamentos de crian\u00e7a, quando eu n\u00e3o tinha pecados. Eram cambaleantes e vagos. Mas havia o sonho, e esse tinha gosto de algod\u00e3o-doce. Quem comeu o meu sonho?<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas lacunas come\u00e7am a se formar no horizonte da minha quietude. N\u00e3o consigo organizar o que espero, o que quero, o que imploro. S\u00f3 consigo notar o quebra-cabe\u00e7a sendo chutado e espalhado pelo ch\u00e3o, as pe\u00e7as se procurando no escuro, n\u00e1ufragas\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Agora desliza um canto morno e sonhador de uma lavadeira. Parece que desenha com suas m\u00e3os a ternura e o encanto da doa\u00e7\u00e3o. Seus calos se encontram e se ro\u00e7am indolores, na umidade espumosa das roupas pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo no ar forma um rodopio, como um princ\u00edpio de tornado. Eram os pensamentos que dan\u00e7avam agonizantes tentando se agarrar em algo. Mas a tarde estava sozinha, n\u00e3o havia gente, n\u00e3o havia ainda estrela, e a noite estava por vir. Foi assim que percebi o qu\u00e3o v\u00e3o e fugaz \u00e9 a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00fabito ouvi o tiro. Pude sentir o \u00faltimo olhar do p\u00e1ssaro antes que o proj\u00e9til de chumbinho atravessasse seu peito. Parece que o tempo parou, e n\u00e3o havia mais o que esperar. Um ru\u00eddo do seu corpinho que bate no ch\u00e3o e uma pena que veio girando em circunvolu\u00e7\u00f5es, flutuando mansamente sobre mim. Um pouco de sangue ainda quente pairava na pena e se arroxeava lentamente, como a tarde que caminhava para a noite. Os meninos pegaram seu corpinho e levaram fazendo festa. Foi o primeiro assassinato que assisti. E agora muitos anos depois ainda vejo no dourado da tarde o sangue do p\u00e1ssaro permeado aos brilhos de chumbo que aguarda a noite chegar. E mais no alto onde o dourado n\u00e3o consegue chegar parece que vejo um v\u00f4o solit\u00e1rio. \u00c9 o v\u00f4o da liberdade que todos aguardamos pacientemente\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Dr. Luis Alberto Peres \u2013 M\u00e9dico Nefrologista \u2013 CRM-PR 11274<\/p>\n<\/body>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava sentado na esquina, embaixo da \u00e1rvore. Pensava no inconstante e vago passeio da vida. No ar pairava um gosto de terra e de esperma. Um p\u00e1ssaro cantou ao longe e me senti seu companheiro. Tentei ent\u00e3o vagar pelo pensamento alado do p\u00e1ssaro no alto da \u00e1rvore. 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