{"id":2044,"date":"2022-07-26T13:42:25","date_gmt":"2022-07-26T16:42:25","guid":{"rendered":"https:\/\/associacaomedicacascavel.com\/?p=2044"},"modified":"2022-07-26T13:47:10","modified_gmt":"2022-07-26T16:47:10","slug":"puxando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/associacaomedicacascavel.com\/index.php\/2022\/07\/26\/puxando\/","title":{"rendered":"Puxando"},"content":{"rendered":"<body>\n<p>Hoje eu vi um senhor que deveria ter mais de 60 anos, andando de bicicleta e puxando a reboque um carrinho cheio de papel\u00e3o. Ele usava um chap\u00e9u de palha simples, tinha o rosto vincado pelo esfor\u00e7o e pela vida tamb\u00e9m. Estava muito quente naquela hora do dia. Aquilo me chamou aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Parecia que aquele papel\u00e3o todo eram suas mem\u00f3rias. As coisas que ele vivera at\u00e9 ali. Os momentos felizes, os momentos tristes, as decep\u00e7\u00f5es, as pequenas conquistas. Os sopros de esperan\u00e7a que batem na gente ao longo da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Parecia que aquele papel\u00e3o todo pesava como seus arrependimentos. As coisas que ele gostaria de ter feito, os lugares que ele gostaria de ter conhecido. Ou seriam as coisas que ele fez e n\u00e3o deveria? As brigas que ele se meteu. Os momentos de destemperan\u00e7a. As noites mal dormidas preocupados com o que por na mesa no outro dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele papel\u00e3o era pesado como os olhares de reprova\u00e7\u00e3o da sua esposa. As brigas que eles tiveram. Os filhos com pena daquele pobre pai. Ou ainda, o pequeno orgulho da fam\u00edlia naquele natal t\u00e3o esperado, com a casa cheia de parentes vindos de nem sei onde. O sorriso do primeiro filho. O primeiro tombo da sua menina tentando andar naquela bicicleta velha que ele tinha recolhido em algum canto da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel\u00e3o fazia o barulho da buzina dos carros tamb\u00e9m. Ele tentando atravessar com aquilo tudo. Sem ser visto por ningu\u00e9m. Mais um catador apenas. Mais um ningu\u00e9m nessa \u00f3pera t\u00e3o triste que pode ser a vida. O som distante da voz dos seus pais. Eles eram como ele, esquecido, sem estudo, sem muitas chances.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel\u00e3o era o serm\u00e3o do padre na missa de domingo. \u201cBem aventurados os que sofrem\u201d dizia o sacerdote, e ele ria pensando: \u201dMas precisa sofrer tanto assim?\u201d. A h\u00f3stia, o vinho, a sa\u00edda da missa com aquela roupa que era a melhor que ele tinha. As crian\u00e7as correndo naquela algazarra de algum domingo perdido. O outro dia para catar mais papel\u00e3o. Ou aquele dia mesmo, quem sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele papel\u00e3o eram os cheiros dos lugares que ele passava. O cheiro ruim de algum dep\u00f3sito de entulhos. O mofo, a sujeira e o cheiro impregnado nele. O suor. O cheiro bom quando passava na frente de uma churrascaria. Lugar fino, coisa de gente abonada. Nada para seu bico.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele senhor carregando o papel\u00e3o me fez pensar em tantas coisas que nem caberiam aqui. Um pensamento para cada volta do pedal. O sol batendo abrasador e inclemente. A rua irradiando calor de volta. E outra volta, e outra volta. Mais um dia que ele via passar.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Carlos Eduardo dos Santos Martins \u2013 Anestesiologista \u2013 CRM\/PR \u2013 20965.<\/em><\/p>\n<\/body>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje eu vi um senhor que deveria ter mais de 60 anos, andando de bicicleta e puxando a reboque um carrinho cheio de papel\u00e3o. Ele usava um chap\u00e9u de palha simples, tinha o rosto vincado pelo esfor\u00e7o e pela vida tamb\u00e9m. Estava muito quente naquela hora do dia. Aquilo me chamou aten\u00e7\u00e3o. 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